Inspirações do Livro Luz na Vida

Não importa qual tipo de yoga você pratica ou aonde – se é Ashtanga em Boulder no Colorado; Yee Yoga em Sag Harbor ou Anusara em São Francisco – o seu yoga foi influenciado por BKS Iyengar. A enorme popularidade do yoga no leste pode ser em grande parte atribuído ao senhor Iyengar que primeiramente introduziu o estilo dele de yoga nos EUA muitas décadas atrás. Muitas das inovações dele são atributos padrão hoje : ele moldou a forma como nós pensamos o alinhamento e desenvolveu termos anatômicos precisos para trazer isso à termo, pioneiro no uso de materiais de apoio como ferramentas de aprendizado. Ensinou como minimizar armadilhas do esoterismo hindu sem sacrificar a missão do yoga pela união do corpo, mente e espírito.

Uma de suas maiores contribuições tem sido o uso do yoga com o viés terapêutico. As descobertas dele providenciaram evidências do poder do yoga para lidar com doenças e o resultado desse trabalho levantou a credibilidade do yoga entre a comunidade médico-científica.

O livro do senhor Iyengar “A luz sobre o Yoga” primeiramente publicado em 1966 tornou-se um clássico e é considerado a referência de um manual de prática de asanas. Quando os professores referem-se à execução correta de uma postura eles estão geralmente referindo-se ao alinhamento que o senhor Iyengar instrui e demonstra nas fotos em seu livro. De fato, no Yoga Journal uma sessão de fotos nunca é feita sem uma cópia do livro “A Luz sobre o Yoga” no estúdio.

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Capa do Livro Luz Sobre o Yoga de BKS Iyengar

“A popularidade do yoga e a minha parte em esparramar esses ensinamentos são origem de muita satisfação para mim”

BKS IYENGAR

O professor segue: “Mas eu não quero que a popularidade espalhada eclipse a profundidade que o tema tem a doar ao praticante”. Ele compartilha a compreensão dele sobre o que ele entende constituir a jornada ióguica no livro.

Ao invés de apresentar as posturas ióguicas tal qual ele fez em “Light on Yoga”, Iyengar revela em “Luz na Vida” o coração do yoga que ele pessoalmente descobriu através de mais de 70 anos de uma disciplinada prática diária. Ele explora a meta do yoga de integrar os diferentes aspectos de nossa existência (física, emocional, mental e espiritual), o propósito das asanas e pranayamas que está ligado à busca da integridade do Todo, os obstáculos internos e externos que nos paralisam no caminho, e as formas precisas que o yoga fornece para que transformemos a nossa vida e nos ajude a viver em harmonia com o mundo à nossa volta. No trecho que segue de “Luz na Yoga” Sr. Iyengar explica o porquê que as práticas dos asanas é tão importante na jornada ióguica, mas não é o final do objetivo.

Capa livro Luz na Vida de BKS Iyengar
Capa livro Luz na Vida de BKS Iyengar

O propósito do asana é alinhar e harmonizar o corpo físico e todas as camadas do corpo sutil emocional, mental e espiritual. Isso é integração. Mas como a pessoa alinha essas camadas e experiencia a integração? Como é possível ir ao encontro dessas profundas transformações que do lado de fora aparentam apenas alongamento ou torções corporais em posições não usuais? Tudo começa com consciência.

Pensamos em inteligência e percepção como se localizassem exclusivamente nos nossos cérebros, mas o yoga nos ensina que consciência e inteligência precisam permear o corpo. Cada parte do corpo precisa literalmente ser engolfada pela inteligência. Precisamos criar um matrimônio entre a presença no corpo e da mente. Quando as duas partes não cooperam leva-se a um sentido de fragmentação e doença, por exemplo, deveríamos comer apenas quando a nossa boca começasse espontaneamente a salivar (que é o sinal do corpo de fome). Quando não seguimos isso estamos forçando um alimento e predispondo-nos à doenças.

Muitos da era moderna usam muito pouco os seus corpos e perdem a sensibilidade da presença do mesmo. Movem-se da cama pra o carro para o escritório para o carro e para a cama sem presença em seus movimentos. Não existe ação. Ação é o movimento imbuído de inteligência. O mundo está preenchido por movimento e o que o mesmo necessita é de mais movimento consciente, mais ação. Yoga nos ensina como injetar inteligência em nossos movimentos transformando-os em ação. De fato as ações incutidas nos asanas devem despertar a inteligência. Quando executamos uma ação em um asana e algo mais se move devemos perguntar se o evento é certo ou errado e; caso seja errado, saber o que deveria ser feito para corrigir.

Como desenvolvemos essa inteligência no corpo? Como aprendemos a transformar nosso movimento em ação?

Asanas podem dar o início nesse ensinamento. Desenvolvemos tamanha intensidade em cada postura que cada poro da pele atuará como um olho interno. Tornamo-nos sensíveis ao diálogo entre a pele e a carne. Dessa forma nossa percepção é difundida por toda a periferia do nosso corpo e é capaz de nos dar a informação se estamos ou não alinhados. Podemos ajustar o nosso corpo a partir da parte interna do mesmo através desses olhos que é muito diferente de ver através de nossos olhos normais. Estaremos sentindo a posição de nosso corpo. Por exemplo, quando você está na postura do guerreiro com os braços estendidos você pode ver os dedos de suas mãos em sua frente, mas também pode senti-los. Você pode sentir a posição e a extensão até as pontinhas dos dedos. Você pode também sentir se a perna de trás está estendida ou não sem a presença de um espelho. Você pode observar e corrigir a postura do corpo (dos dois lados) com a ajuda de trilhões de olhos que você possui em formas de células. É assim que você começa a levar consciência ao seu corpo e fusionar a inteligência do cérebro ao mesmo. Essa inteligência deveria existir em todas as partes em seu corpo e através do asana.

Consciência fluindo pelo corpo, dos pés a cabeça.

No momento em que você perde a sensação da pele o asana torna-se opaco e perde-se a corrente a inteligência no corpo. A consciência sensível do corpo e a inteligência cerebral e cardíaca devem estar em harmonia. O cérebro pode instruir uma postura ao corpo, mas o coração deve senti-la também. O cérebro é o assento da inteligência e o coração o assento da emoção. Ambos devem trabalhar em cooperação com o corpo.

Requere-se um exercício de intenção de ação, mas o cérebro deve estar apto a escutar o corpo e ver o que é razoável e prudente dentro da capacidade do corpo. A inteligência do corpo é um fato. É real. A inteligência do cérebro é tão somente imaginação. Então a imaginação tem que ser feita realidade. O cérebro pode sonhar em fazer uma extensão difícil hoje, mas não pode forçar o impossível mesmo em um corpo desejoso de realizar tal asana. Estamos sempre tentando progredir mas a cooperação interna é fundamental. O cérebro pode dizer: “podemos fazer”. Mas os joelhos dizem: “quem é você a me ditar o que fazer? Cabe a mim dizer se posso ou não posso fazer”. Então precisamos escutar o que o corpo tem a dizer.

Algumas vezes o corpo coopera conosco e algumas vezes penso que não. Se necessário precisamos usar a nossa inteligência para refletir. As soluções serão apresentadas à nós mesmo que no início em forma de tentativa erro. O cérebro não sabe de tudo. Se ele recebe sabedoria do corpo ele poderá fornecer sabedoria ao corpo posteriormente. Dessa maneira eles trabalharão de forma cooperada para conquistar o asana juntos. Esse é o processo do entrelaçamento e interpenetração quando as camadas de nosso Ser trabalham em harmonia um com o outro. Com entrelaçamento eu digo que os fios e fibras de nosso Ser em todos os níveis são levados a comunicarem-se entre si. É assim que o corpo e a mente aprendem a trabalhar juntos. A pele providencia a camada mais externa de inteligência e no nosso âmago a nossa sabedoria íntima. Nesse tempo não temos dualidade: você é um e completo. Você existe sem a sensação da existência. O desafio desde a pele deve tocar o Self, nossa alma e o Self deve dizer: o que mais eu devo fazer?

A sabedoria externa incita o Self a agir. Como eu mencionei, enquanto fazemos yoga o corpo deve dizer o que há a ser feito e não o cérebro. O cérebro precisa cooperar com a mensagem que recebe do corpo. Eu falo com frequência aos estudantes: “seu cérebro não é o seu corpo! Por isso você não conquista o asana”. Eu digo, portanto, que a inteligência dele está apenas no cérebro e não penetra no corpo. Pode ser que o cérebro move-se mais rápido que o corpo ou pode ser que o corpo pode falhar em absorver as instruções do cérebro que pode estar com falta de guiança correta do intelecto. Você deve aprender a mover o cérebro um pouco mais devagar para que o mesmo possa acompanhar o corpo, ou terá que fazer o corpo mover-se um pouco mais rápido para empatar com a inteligência cerebral. Depois de atuar reflita sobre o que você fez. O cérebro interpretou a ação de forma correta? Se o cérebro não observou corretamente então teremos confusão em ação.

A tarefa do cérebro é receber sabedoria do corpo e guiar o mesmo para refinar a ação.

Pause e reflita entre cada movimento. Esse é o progresso em atenção. Então na quietude você poderá ser inundado com um estado de percepção aumentada de si. Quando você pergunta a si mesmo, “cada parte minha fez a sua parte do trabalho? ”isso é percepção de si. O Self precisa saber se isso foi bem feito ou não. Pausar para refletir sobre o seu movimento não significa que você não esteja refletindo sobre o movimento. Precisa haver uma análise constante através da ação e não apenas depois. Isso nos leva a uma compreensão mais verdadeira. O real significado da sabedoria é a sincronização de sabedoria e ação. Ação lenta permite inteligência reflexiva. Isso permite que a nossa mente olhe o movimento e carregue-o a uma ação precisa. A arte da yoga reside na acuidade da observação.

Como estão suas mãos agora? E os pés?

Quando perguntamo-nos, “o que estou fazendo” e “porque estou fazendo?” nossa mente se abre. Isso é a percepção expandida de si. Entretanto é necessário apontar que o estudantes devem possuir essa percepção e não tornarem-se preocupados ou mesmo ocupados consigo. A última é quando a mente de forma constante se preocupa e fica elucubrando sobre ela mesma, sempre duvidando e se auto-absorvendo nisso. É como ter o demônio e o anjo sentados em seus ombros argumentando sobre o que você deve fazer. Quando você está preocupado consigo mesmo você irá se exaurir. Você irá também exaurir músculos desnecessariamente pois você está pensando sobre o asana e o quanto você quer alongar. Você não está experimentando o asana e alongando de acordo com a sua capacidade.

A percepção expandida de si é o oposto do estado aonde os estudantes ficam elucubrando a respeito de si. Quando você está com a percepção expandida você está totalmente com você e não fora de você olhando para o que passa dentro. Você está sabendo o que você está fazendo sem a presença do ego ou do orgulho.

Quando você não pode manter o corpo tranquilo, você não pode manter o cérebro tranquilo. Se você não sabe o silêncio do corpo, você não pode entender o silêncio da mente. Ação e silêncio devem andar juntos. Se há ação deve também existir silêncio. Se há silêncio deve também haver ação consciente e não apenas movimento. Quando ação e silêncio combinam-se como as duas placas da embreagem de um carro então a inteligência está na embreagem.

Enquanto fazendo as posturas a sua mente deve estar em um estado interno de consciência, que não significa dormir, significa silêncio, vazio, e espaço que pode ser preenchido com atenção precisa nas sensações doadas pela postura. Você observa a si mesmo desde dentro. É um silêncio pleno. Mantenha uma atitude desapegada em relação ao corpo, e ao mesmo tempo, não negligencie nenhuma parte do corpo ou demonstre pressa; esteja alerta durante o asana. A pressa sabota a força, esteja você em Nova Iorque ou em Nova Déli. Faça as coisas ritmadas com a mente calma.

É difícil falar da sabedoria do corpo em palavras. É muito mais fácil descobrir como é a sensação. É como se os raios de luz de sua inteligência estivessem permeando o seu corpo, seus braços até os seus dedos e descendo às suas pernas e à solas dos pés. Enquanto isso ocorre a mente torna-se passiva e começa a relaxar. Isso é uma passividade alerta e não um estado morto e vazio. O estado alerta de resposta regenera a mente e purifica o corpo.

Enquanto você está fazendo um asana você deve recarregar sua presença intelectual o a todo momento significando que a atenção flui sem interrupção. No momento em que você colapsa você não recarrega e atenção se dispersa. Então a pratica do asana é um hábito e não uma pratica criativa revigorante. No momento em que você coloca ação, você está criando algo e a criação tem vida e energia. A atenção leva-nos a ganhar vida e energia na vida e nas posturas. A presença na ação rejuvenesce a mente e o corpo. A atenção e presença trazem vida e a vida é dinâmica e assim devem ser as posturas.

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