Geeta Iyengar sobre seu pai - ESYSP

Geeta Iyengar sobre seu pai

Fala de Geeta Iyengar extraída de Yoga Rahasya Vol. 26 No. 1; 2019.

Antes de chegar aqui eu queria muito cancelar a minha palestra. Eu pedi para a Sunita checar o programa e ver se eu poderia adiar a minha fala. Eu estava muito cansada ontem depois de 5 dias ensinando e todos sabem que eu reduzi a minha quantidade de aulas embora eu siga com 5 aulas na semana. Esses dias eu deleguei as minhas aulas de pranayama para professores mais seniors uma vez que me é custoso as aulas na manhãs e finais de dia. Por isso eu estava exausta depois das duas sessões. Quando o cérebro está cansado o corpo também cansa; quando o corpo cansa o discurso cansa e se o discurso está cansado é porque tudo está cansado. Esse era o meu estado. Eu pedi para a Sunita ligar ao Rajvi e pedir para adiar a minha fala. Então eu pensei: “já que eu concordei em falar é melhor eu ir”.

Corpo, mente e respiração são tão importantes nas nossas vidas. Quando um falha o outro falha e no final os três falham. Então a gente se torna sem uso, sem poder ajudar e sem esperança. Então eu estou orando por minha mãe, meu pai e meu guru. Eu os vejo conjuntamente pois guiaram-me ao longo de minha vida.

família Iyengar
Família Iyengar

Guruji foi uma pessoa muito grande, um ser humano diferenciado e falar sobre o mesmo em curto tempo é impossível. Eu devo falar sobre guruji da mesma forma como vocês falaram sobre ele no outro dia. Por isso os organizadores pensaram em me ter falando de guruji.

Claro que nesses cinco dias eu falei e rememorei vocês a respeito das muitas facetas de guruji e seus ensinamentos, trabalho, diálogos, forma de tocar e de acessar os outros. Agora preciso falar de novo e não sei se as palavras seriam suficientes com meu vocabulário limitado.

Uma coisa eu posso de forma definitiva falar: guruji era uma criança diferente. Eu não o vi na infância mas escutei muito de meus parentes a respeito dele. Diziam que a forma que ele olhava, observava era diferente e eu pude entender isso advindo daqueles que já se foram.

Todos diziam que a vida dele seria curta e muitas vezes ele esteve próximo da morte. O que o levou a manter-se longe dela? Talvez deus o tenha poupado para nós todos, para que pudéssemos receber dele e seguir no caminho do mesmo. No que tange a educação, a dele foi limitada. Ele não teve chance de estudar mais por causa de limitações financeiras, contexto familiar ou porque tinha um perfil de desnutrição que o impedia de acompanhar a pressão escolar. Mas, ao mesmo tempo, quando ele começava a ensinar ele precisava ensinar nas escolas, colégios e idosos. Ele fez isto sem ter uma educação formal ou diploma; ele tocou a todos e finalmente obteve um doutorado de uma universidade.

É verdade que ele não foi treinado tampouco em ioga, pois esteve com seu guru por menos de 2 anos e meio. Alguns poucos asanas foram ensinados à ele e esses também dentro de um senso de urgência. Guruji tinha um acompanhante, Keshavamurthy, que era um muito bom aluno que fazia todos os asanas que você vê em “Light on Yoga”. Ele era muito bom! Guruji tinha entre 13 e 14 anos e esse amigo também. Porque eu menciono esse fato? Keshavamurthy foi treinado por seu guru por um tempo longo enquanto guruji apenas foi à sua casa e aprendeu um pouco e mal podia fazer 10 , 12 asanas. Ele podia fazer algumas asanas em pé e mal fazia as flexões pois mal chegava aos seus joelhos com suas mãos em Janu Sirsasana ou Paschimottanasana. Imaginem o quanto rígido ele era, e eu menciono pois alguns de vocês falam que não sabem o que fazer pois são rígidos. Se você tem rigidez então siga-o e isso será quebrado.

Quero que saibam qual era o nível de guruji naquele tempo que certamente teria uma marca “0” de pontuação em suas flexões. Seus joelhos e cotovelos estavam sempre dobrados em função de suas doenças naquela época. Ele não podia nunca estender essas articulações e por isso nas fotos antigas é isso que você vê. O peito inteiro para dentro e de alguma forma algum arco era feito mesmo assim. Quando você compara as fotos antigas fotos e ultimas do Astada Yogamala você pode imaginar como seus arcos eram. Ele as fazia de alguma forma, mas eram bem fracas. Então obviamente que ele começou pelo seu físico, seu primeiro instrumento, que era bem fraco e sem energia e com respiração pobre haja vista os problemas de saúde. O ar e corpo e os estudos faltavam-lhe.

Quando ele estava em companhia de seu guru ele precisava se extenuar muito em muitas atividades físicas e com a exaustão física seu ar faltava-lhe e ele dizia que seu cérebro não colaborava e essa era a sua limitação adicional.

Nós estamos sendo educados e temos livros para ler; mas o seu passado era tal que ele tinha apenas o esgotamento físico. Ele discursava sobre como ele caminhava da casa para a escola embora o yogashala fosse perto da escola. A disciplina de seu guru era tal que ele tinha que ir da escola para casa para deixar os seus livros e depois voltar ao yogashala. A saúde pobre dele deixava-o depressivo. Atualmente chamamos de depressão, mas naqueles dias essa palavra era desconhecida nas famílias indianas. Ele nunca falava que estava deprimido mas agora eu deixo-os a par de alguns temas.

Você sabe que guruji ficava sempre bravo caso você errasse e ele gritaria contigo ou daria um tapa no exato ponto aonde você falhou. Ele não batia em ninguém, mas acertava o ponto exato aonde o aluno estava sem inteligência ou em erro que poderia ser as suas costas, seu cérebro ou o seu joelho. Se ele tivesse que estender os sus joelhos ele bateria e diria: “você pode estender as suas pernas? Você pode estender os seus joelhos?”. As suas expressões e seu toque tinham uma relação muito próxima e talvez os seus sofrimentos anteriores e estados anteriores o fizeram bravo por dentro. O seu passado era de ter sido fraco e de ter tido um corpo que mostrava isso. Era por isso que seus companheiros diziam que ele era fraco e nada capaz de fazer coisas. Era impossível pra ele escalar árvores ou montanhas, atividades essas, que eram desempenhadas pelas crianças da época. Mas ele provaria que faria coisas por conta de sua força de vontade escondida dentro dele. Até seus amigos tiravam sarro dele e assim foi a construção de sua personalidade. Ele era fraco mas havia um competidor internalizado dentro dele que achava que se os demais eram capazes então ele seria também. Adicionado à isso havia o guru dele que era muito severo. Os trabalhos e as tarefas tinham que ser feitas, assim sendo, entendam qual era o reservatório histórico da vida do mesmo nada simples.

Então quando ele foi para Pune ele não tinha dinheiro para se alimentar muitas vezes passando à agua da torneira. E ele fez isso e viveu disso. Um de seus amigos me contou que o pai dele e o meu dividiam um chá para que cada qual arcasse com metade do valor. Ambos não tinham dinheiro para comida então dividiam um chá. Esse amigo dizia como eles falavam sobretudo desde politica até yoga.

Guruji foi chamado para ensinar em escolas, como a Fergunson-College. Nessas escolas os alunos eram muito mais altos do que ele com peitos largos e corpos bem nutridos e desenvolvidos. Esse corpo de guruji subdesenvolvido era o que se apresentava na escola! Imaginem essa situação! Ali estava alguém ensinando as pessoas a estenderem os seu braços enquanto o seu próprio corpo mostrava costelas projetadas e com um abdômen faminto sem nenhuma expressão. Nada mostrava de seu corpo e, mesmo assim, ele ensinava.

Mesmo naqueles dias, seus corpos moviam-se com velocidade. Ele fazia muitos saltos e extensões por causa de seu gatilho auto-motivador. Ele mesmo aprendeu muito ao ensinar e hoje o seu método e o de Krishnamacharya são repassados. Não era assim antes. Quando ele ensinava nas escolas e colégios ele ia muito rápido sequenciando de forma apropriada. Hoje se você faz as asanas de forma rápida as pessoas perguntam : “você está fazendo ashtanga yoga? Você pratica Iyengar yoga? “. Para Krishnamacharya não existia uma coisa ou outra. Conforme ele avançou nos ensinos ele acabou dando aulas pra diferentes grupos de pessoas como jovens, estudantes, senhoras, idosos e por isso ele desenvolveu uma metodologia para grupos diversos.

Você precisa ter essa cena de frente à ti. Ele desenvolveu uma metodologia para ensinar esses grupos diversos de pessoas e dar um viés científico ao tema. Por isso ele pode dar suporte às pessoas que lidam com doenças pois ele não teve aulas nesse setor a não ser por algumas lições de fisiologia e higiene na escola.

Ninguém o ensinou como sequenciar asanas. Ele trouxe esse aspecto pois notou que seria importante para o corpo atuar de forma certa. Porque ele pensou nisso? Pois o guru dele demandava qualquer asana da parte dele a qualquer momento. Se o guru dele dissesse : “faça rajakapotanasana”. Ele tinha que fazer. Se fosse Vrischikasana ele teria que fazer imediatamente. Hoje se pedirmos a você fazer sirsasana você saberá qual a parte da cabeça que deve ir ao chão, como devem estar os braços e as pernas e ter tempo de ajustar. Mas ele não tinha esse tempo. Se o guru demandasse, ele teria que fazer sirsasana e sua força de vontade era tamanha que ele acabava se equilibrando e acho que ele nunca usou uma parede para essa postura. A parede apareceu na mente dele apenas para ajudar os seus estudantes.

Ele não leu muito sobre as bases filosóficas do yoga, mas tinha um interesse e ele queria saber sobre o yoga. Ele escutou algo sobre o yoga sutras de seu professor, mas ele não aprendeu muito sobre esses aspectos. Para você o corpo é tão somente o seu corpo, mas pra ele o corpo era feito de 24 constituintes : karmendrya, jnanendryas, a mente, a inteligência, a força de vontade, a consciência de si (ego), corpo elemental, corpo elemental sutil e trouxe todas essas facetas para a prática. Todos esses constituintes junto com a consciência precisam andar juntos durante a prática de asanas e pranayamas. Porisso existem tantas tecnicalidades e detalhes nessa prática. Ele ensinava sobre os 24 temas da prakriti enquanto ensinava. Ele começava com asana e depois mais tarde pranayamas.

Ele analisava os 24 temas da evolução de prakriti enquanto praticava e durante o processo de ensino. Por isso o método é metódico e muito disciplinado. O endereçamento do que vem depois é importante e não pensem que ele não sabia sobre os demais aspectos do yoga. Ele sabia de todos.

No livro dele sobre pranayama ele fornece detalhes sobre a arte da inalação, da exalação e da retenção. Se você ler então você se dará conta de que ele tinha muita clareza sobre os kriyas, as ações. Você precisa dessa clareza sobre a ação quando pratica. Ele tinha a profundidade de saber aonde o ar tocava quando uma inalação acontecia. Quando pensamos no toque movemo-nos ao tanmatra , os elementos sutis do corpo. Assim é que a prática se desenvolvia.

BKS Iyengar praticando pranayama

Porque ele era apreciado? Ele iniciava pelo corpo para que as pessoas entendessem o corpo. Nós poderíamos nos dar conta do que acontecia com o corpo fisiológico. Agora você diz que a terapia era muito boa. “oh eu tenho uma dor nos joelhos, devo conversar com você a respeito dessa dor?”. Ele já descobriu e deu através do método o que temos que lidar em relação à nós mesmos.

Hoje a gente entoou os sutras. Guruji fez uma gravação dos sutras para trazer clareza a respeito. Ele gravou de forma que todos possam recitar de forma apropriada. Existem tantas línguas no mundo e não é possível que todos consigam a pronuncia do sânscrito. Portanto ele gravou. Por isso agora você pode escutar alunos entoando os yoga sutras em tantas partes do mundo. Até mesmo no livro os sutras foram explicados em palavra por palavra. Espero que venha em mais línguas indianas. A tradução para o Hindi é muito boa. O tradutor menciona que ele já havia feito muitas traduções do yoga sutras, mas que no livro de guurji ele encontrou uma clareza no significado dado ao sutra combinado com experiências próprias.

Yoga é um tema e conceito que precisa ser feito. Precisa ser experienciado. Ele era portanto um filósofo vivo perante o yoga. Ele vivia na filosofia do yoga porque em tudo ele mencionava asana, pranayama e dhyana.

Precisamos saber de tudo isso. Quando você lê o livro com esse plano de fundo então você saberá o que está escondido na prática de asana, pranayama e dhyana; e como é belo observar o entrelaçamento sendo processado mostrando as inter-relações que não são encontradas em outras interpretações do yoga sutras. Ele mostrou as inter-relações entre os oito aspectos do yoga todo o tempo. Tudo conecta-se entre si. Yama é conectado com dhyana e com samadhi também. Ele mostra como yama e nyamas devem ser trazidos ao asana e pranayama. Como o asana e pranayama devem ser levados até yama e nyama. Ele não aceitará seu asana caso esteja fora do contexto de yama e nyama pois estaria fora do contexto do yoga. Ele quer que você esteja dentro do yoga. Guruji mostrou essas conexões em todas as partes. Como dharana está conectado ao corpo e como dhyana está conectado ao dharana., o processo de trazer essa relação para a superfície para descobrir como uma relação depende da outra.

Mesmo que você tenha alcançado o topo não deve esquecer os aspectos preliminares. Você deve estar em Jagruta Avastha. Deve estar em um estado totalmente desperto e é por isso que yama e nyama tornam-se sutis nessa fase.

No início orientamos, como falamos com as crianças, para não machucar e ofender ninguém. Isso é compreensível.

Então, ahimsa, não violência chega à cena. Ele ensina ahimsa no asana e no pranayama e também em samadhi, em qual estado e nível a não-violência pode chegar. A não violência deve ser enxergada internamente antes de mais nada. Ele é muito claro no tópico de abhyasa e vairagya. Ele menciona que a não ser que você faça abhyasa, vairagya não pode acontecer. Ninguém nesse mundo pode tornar-se sem desejo algum se não estiver praticando pois o processo do fazer é muito importante. Não apenas fazer asanas um após o outro, ontem mesmo eu falava sobre tapas, svadhyaya, Ishvara pranidhanani kriya yogah.

Guruji constantemente explica como abhyasa precisa ser feito e como vairagiya, cessasão de desejo desenvolver-se-á. A gente se esquece e negligencia isso e é por isso que todo o conceito do yoga como dito por guruji não é entendido por muitos de nós. Vairagya deve ser desenvolvido dessa maneira com a prática. Não é “desisitir”.

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