As escrituras sobre os alimentos

Prashant Iyengar
Yoga Rahasya Vol. 26 No 3; 2019

Os sábios e visionários dos Upanishads tiveram vislumbres infalíveis sobre todos os temas que ponderaram. Nunca fizeram afirmações às avessas. Notavam que havia sempre uma base de realidade em suas visões e não meramente idealísticas a depender sempre do tempo e local aplicado. Isso é pra dizer que quando os valores eram puramente idealísticos a sua validade não superava a invalidez. O que quer que seja ideal hoje talvez não o seja amanhã, e o que quer que seja ideal para uma pessoa, talvez não seja para outra.

Sabemos que as visões sobre a alimentação hoje na ciência moderna da saúde no mundo não é um composto de realidade real e ideal, mas sim de uma estipulação pessoal onde na maioria das vezes os planos de dieta são agrupados com base em idade, saúde, natureza da atividade etc. Portanto, não são universais e validos eternamente. Essas ciências falham no quesito REALIDADE. Realidade a respeito de alimentos podem ser  buscados apenas nas escrituras que são eternas.

O pensamento dos Upanishads está centralizado ao redor de uma entidade única, que é a realidade absoluta, chamada de “Brahman”.

Mas afinal de contas, o que é esse “Brahman”? A resposta é:

 yato va imani bhutani jayante
dessa forma os seres nascem

Yena jatanai jivanti 
ali aonde ambos são sustentados

Yat prayanty abhi samvisanti 
ali aonde na saída de todos eles entram

Resumindo, Brahman é a única entidade de onde todos os serem se originam, pelo qual eles se sustentam e para onde são absorvidos. Bhrigu no Taittriya Upanishad revela: 

Annam brhama iti vyajanat
alimentação é brahman.

Aqui podemos dizer que o que Bhrigu revelou foi uma exaltação (atisayokti), um tipo de hipérbole (arthavad), porque os Upanishads proclamaram que tudo é Brahman! Através da fala:

Sarvam khalv idam brahma – Chandogya Up.
‘verdadeiramente todo esse mundo é Brahman’

Então podemos pensar que Bhrigu revelou uma hipérbole e que não havia encontrado uma racionalização. 

Vamos então,  verificar se o que foi revelado por Bhrigu consistia apenas como uma fala, uma prece ou se havia uma base explicável de raciocínio. Vimos anteriormente o que é “Brahman”, e Bhrigu desenhou um paralelo entre alimento e Brahman dizendo:

 it vyajanat  
“Alimento é Brahman”

Annat hi eva khalv imani bhutani jayante
“Dos alimentos esses seres nascem:

annena-jatani jivanti
 “quando nascem eles vivem com a comida”

annena prayanty abhisamvisanti
“para dentro do alimento eles entram depois de partirem”.

Em suma, é revelado que a partir da comida a vida nasce, através da comida o ser se mantém e com a comida se fusiona quando deixam a vida.

Vamos agora analisar se isso tudo ocorre com a comida. Com a nossa visão limitada podemos apenas acreditar na comida como algo que sustenta a vida. Não podemos, entretanto, racionalmente chegar a um acordo com a afirmação de que a vida nasce da comida pois estamos familiarizados com o fato que nascemos do útero de nossas mães e não da comida. 

Seria iluminador saber qual teoria os Upanishads tem a ofertar ao redor da afirmação “a vida nasce do alimento”.

No Chandogya Upanishad existe uma vydia chamada panchagni vidya – doutrina dos fogos, que ensina que a inteiração da água com a terra e com o calor do sol resulta em chuva, da inteiração da chuva e da terra cresce a vegetação que é alimento, pela inteiração de alimento assimilado a atividade glandular-psico-fisica o sêmen do homem e da célula germinal da mulher é desenvolvido, com a inteiração do sêmen e da célula germinal a vida toma corpo e, assim sendo, o teorema é estabelecido de que a vida nasce da comida.

Seria relevante verificar o que o Prashna Upanishad tem a dizer dentro desse contexto. É dito que:

annam vai prajapatih, tato há vaitad retah,
Tasmad imah prajah prajayante . iti

Prashna Up. 1.14

Que significa “o alimento é o senhor de todas as criaturas. A partir daí, propõe-se o tema da semente da vida onde todos os seres nascem“. Até aonde entendemos que o alimento é o sustentador, vislumbramo-nos como dependente deste. Os Upanishads glorificam o alimento dizendo:

Annena vava sarva prana-mahiyante.
 “toda a força vital é nutrida pelo alimento”.

Tai. Up I.5.3

Bom, agora o que remanesce é a resposta da questão sobre a vida emergir da mesma comida depois que partimos. O nosso corpo físico é uma corporificação de cinco elementos grossos, são eles:

Prthvielemento terra
Apelemento agua
Tejaelemento fogo
Vayuelemento ar
Akasaelemento espaço

O corpo é confinado de volta à esses elementos depois da morte pelo descarte, havendo enterro ou cremação. Comida nada mais é que o efeito da interação desses elementos grossos com a bioforça fusionada em combinações.

Portanto, nenhum alimento existe separado desses 5 elementos grossos, logo quando as escrituras mencionam que a gente se fusiona ao mesmo alimento quando vamos embora não é fantasia, mas um fato. Assim sendo, a comida torna-se totalmente qualificada a ser chamada de Brahman, pois Brahman, como nos ensinaram, é a entidade de onde todas as coisas florescem, são sustentadas e absorvidas.

Brahma, o Deus da criação

Sendo assim , a comida é nosso criador, sustentador e absorvedor, e por isso Bhrigu veio com o teorema de anna brahmeti, que significa “a comida é verdadeiramente Brahman”.

Então, ao realizar o significado de comida nossos sábios anciões demandavam que a mesma não fosse consumida apenas para encher as nossas barrigas e satisfazer o gozo dos sentidos. 

Eles faziam da alimentação um rito de sacrifício e desfrutavam como um ritual de orações. Vamos olhar para isso:

Sraddhayan prane invisto mrtam juhomi
Sraddhayan apane invisto mrtam juhomi
Sraddhayan vyane invisto mrtam juhomi
Sraddhayan udane invisto mrtam juhomi
Sraddhayan prane invisto mrtam juhomi
Sraddhayan samae invisto mrtam juhomi
Brahmani anrta tvaua

A tradução literal da recitação seria:

Firme em minha fé religiosa eu ofereço essa oblação de comida para Prana
Firme em minha fé religiosa eu ofereço essa oblação de comida para Apana
Firme em minha fé religiosa eu ofereço essa oblação de comida para Vyana
Firme em minha fé religiosa eu ofereço essa oblação de comida para Udana
Firme em minha fé religiosa eu ofereço essa oblação de comida para Samana
Com essas oferendas que eu me una ao Supremo para conquistar a imortalidade

A recitação acima era parte usada no rito de agnihrotafogo sagrado. Esse costumava ser um fogo sagrado perpetuado por um Brahmane. Era primordialmente e fundamentalmente um rito cuja performance as oferendas ao Supremo era oferecidas no fogo sacramentado. Isso costumava ser um fogo externo, de verdade, e o Supremo era invocado nesse fogo antes das oblações. Uma versão pequena disso chama-se pranaghirota– sacrifício à energia vital, que é feita antes das refeições. Isso articula-se com a ideia de que o instinto de dividir e ingerir o alimento deve ser santificado e espiritualizado.

O fato é que de acordo com a ciência indiana, toda comida é digerida por um fogo chamado vaisnara agni – fogo digestório que na medicina moderna chamam de fogo gástrico. O panchagnividya– a doutrina dos 5 fogos do Chandogya Upanishads diz que “o alimento que chega primeiro na nossa alimentação deve ser objeto de oblação e não desfrute”. Então o  primeiro seguimento de alimento deve ser ofertado para prana (energia vital) com o mantra pranaya svaha – saudações e bênçãos para a forca vital!

Diz nas Upanishads que, através do agente prana, órgão da visão (os olhos), o senhor dos olhos ( o Sol) e os céus são satisfeitos e promovidos. Ao satisfazer o Sol e os céus de onde as bênçãos perenes jorram, o que se come é abençoado com boa descendência, gado, brilho e sagrada refulgência nascida da sabedoria. Esse é o significado da oblação de comida ofertada ao prana.

Quando a comida ofertada para vyana (ar vital) com os mantras vyana svaha, o vyana é satisfeito. Vyana é dito ser o bio-motor de força atrás do sistema nervoso em nosso corpo. O vyana sendo satisfeito diz-se que os órgãos auditivos (os ouvidos) são satisfeitos. Quando o ouvido é satisfeito o deus da Lua e os quartos dikdevata são promovidos. Então, tudo o que está embaixo do poder da lua e dos dikdevata são satisfeitos e o que  se come é abençoado com boa descendência, gado, brilho e sagrada refulgência nascida da sabedoria. 

Quando a comida ofertada para apana (ar vital ou força bio-motora por detrás da ejeção da excreção e da força atrás dos órgãos regenerativos) com os mantras apanaya svaha, o apana é satisfeito. O apana sendo satisfeito diz-se que os órgãos da fala e a deidade agni devata (deus do fogo) que o preside são satisfeitos. Quando o deus da terra é satisfeito tudo que está abaixo do poder da terra é satisfeito. O que se alimenta é abençoado com boa descendência, gado, brilho e sagrada refulgência nascida da sabedoria. 

Quando a oferta é feita à samana (ar vital ou força bio-motora de base da circulação dos sucos de alimentos no corpo), então o mantra a ser recitado é samanaya svaha (saudações e bênçãos a samana). Quando samana é satisfeito e, logo, a mente é satisfeita junto com parjanya devata (deus da chuva). Através da satisfação do deus-chuva a vidyuti devata, deusa dos relâmpagos, é satisfeita, assim sendo tudo depende de chuvas e relâmpagos são satisfeitos. Assim o que se alimenta é satisfeito com boa descendência, gado, comida, brilho e refulgência nascida da sabedoria. 

Quando o alimento é oferecido a udana (a força bio-motora que sustenta a pulsação arterial nas partes superiores de nosso corpo), o mantra a ser recitado é udayana svaha. O udana é satisfeito e, logo, o tvakindrya, o órgão do toque, sensação, a pele é satisfeito; assim sendo o vayu devata – deus do vento abaixo da regra de vayu – o ar e akasa (espaço) é satisfeito e o que se alimenta é satisfeito com boa descendência, gado, comida, brilho e refulgência nascida da sabedoria. 

Existem cinco oblações feitas no pranagnihotra (sacrifício à energia vital). Dessa forma o ato de comer uma comida é santificado e rendido a um ato religioso e espiritual. Com esse propósito, um processo foi introduzido para ser seguido no início de cada refeição. 

5 vayus

Vamos examinar esse processo:

Primeiro, água pura é pegada tomada na mão direita e espirrada numa folha sobre a qual a comida será posta. Depois de novo a mão direita é levada a forma de copo e preenchida com água, a água é espirrada ao redor do prato no sentido horário para santificá-lo e a área aonde é colocado bem como a comida enquanto recita-se o mantra satyam tvartena parisincami. Em seguida, uma quantidade pequena de água é sorvida enquanto pronuncia-se o mantra amrtopastaranamasi.

O sentimento por detrás é: “oh água a base e o assento do qual se espalha pra fora sob anna brahma o alimento imortal”. Assim as cinco oblações são feitas na seguinte ordem culminando com a oferenda a Brahman

Pranaya svaha
Apanaya svaha
Vyanaya svaha
Udanaya svaha
Samanaya svaha
Brahmane svaha

Simultaneamente um bocado de arroz é ofertado ao fogo gástrico através da boca e então a refeição é tomada. No final da mesma, mais uma vez uma quantidade pequena de água é bebida com o mantra amrtapidhanamasi, que é conhecido como aposana. O sentido literal é “oh água a base e o assento do qual se espalha pra fora sob anna brahma o alimento imortal”.

As nossas ciências revelaram que vayu agni (fogo gástrico) é instrumental na assimilação da comida que é ingerida. Claramente esse fogo não é material mas trans-material. Senhor Krisna no Bhagavad Gita, diz:

Aham vaisvanara bhutva praninam dehamasritah
Pranapanasamayayuktah pacamyannan caturvidham

(Gita XV, 14)

 “Em tornando-me fogo gástrico nos seres viventes e unido prana e apana (a força por detrás da inspiração e expiração) eu faço a digestão dos 4 tipos de alimentos. Os quatro tipos de alimentos são aqueles que são 1) mastigados 2) bebidos 3) sorvidos e 4) engolidos.

Krishna

Agora vamos ao Chandoya Upanishad que nos conta sobre o que acontece com a comida depois de digerida. 

Diz-se que a comida no processo da assimilação e depois da assimilação divide-se em três partes, são elas:

  1. A grossa
  2. A mediana
  3. A sutil 

A forma grossa da comida vira excremento e é expelida na forma de fezes. A mediana vira carne, e a sutil torna-se mente, essa parte sutil adentra o coração e depois as artérias. É interessante notar que, o sentido védico de mente é de que ela é matéria que por conclusão é endossada pela ciência ocidental. Recordemos que o ocidente tinha a tendência de diferenciar mente e matéria na corrente de pensamento da era medieval que segue validada até tempos atuais.

O professor em Chandoya Upanishad procede mencionando a análise dos elementos  líquidos na comida, e diz que o grosso vira urina, o mediano sangue e o sutil energia vital chamada de força bio-motora. 

Similarmente como referimos no conteúdo do alimento como o ghee ou manteiga clarificada o grosseiro vira osso, o mediano tutano e o sutil a fala significando que a mesma torna-se eloquente e distinta. Sendo assim, o Chandoya Upanishad estabelece o seguinte teorema:

Annamayam hi, saumya, mana, apomayaha, pranah, tejamayai va ti.

Chadogya Up.

A mente é feita de comida, prana feito do elemento agua e a fala do elemento fogo advindo nos alimentos. 

Vamos ver o que os Upanishads dizem sobre o processo da evolução da mente desde a comida. Isso tem sido muito eficaz através de uma ilustração. Acharya Uddalaka diz: “querido Svetaketu, quando a coalhada é curada com uma pá, parte sutil sobe como manteiga, então querido menino, saiba que a comida quando ingerida torna-se mente”.

No término de tudo as comidas ingeridas por uma pessoa é reduzida no estômago pelo fogo digestório combinado com atividade do ar, isso é como bater/ misturar com uma pá para que a comida fique pronta a ser assimilada. Igualmente é o processo onde os Upanishads contam que a água é o elemento que vira prana e o elemento fogo nos alimentos torna-se a fala, e esse é o teorema postulado pelos professores Upanishadicos.

Annamayam hi, saumya, manah.
“a mente é feita de comida”.

Então de certa forma a comida sendo a causa que compõe a mente, não é possível para nenhuma moral, ética, mente, fisiologia, religião ou ciência espiritual a sistemas de pensamentos irradiar a realidade a não ser que estejam preocupados a respeito do tema da comida e hábitos alimentares e aptos a darem diretrizes nos princípios sobre a alimentação.

Qualquer ciência que lide com a mente não pode descartar o tema da comida. Aqui levemos em conta que nenhum estudante de yoga pode ser indisciplinado com a sua alimentação. Por isso nos Vedas Acharyas, os hábitos alimentares estão contemplados. Para citar um exemplo vamos ver o que o Acharya Sanatkumar disse a Narada:

Ahara suddhau sattvasuddhih, sattvasuddhau dhruva smrtih
Smrti lambhe Sarvagranthinam vipramoksah

(chandogya Up. VII, 26,2)

O que é instruído aqui é que “quando a nutrição é pura o Sattva torna-se puro”; aqui sattva significa o instrumento da sabedoria. Quando Sattva (instrumento da sabedoria) é purificado então a memória (o poder da meditação) torna-se estável. Deve-se entender aqui que as palavras dhruva smrti (memória firme) não firma-se para a faculdade ordinária de relembrar, mas sim articula-se sobre a cognição não alterada da meditação. Quando tal poder da meditação é conquistado então os nós do coração (na forma de klesakarma vasana, que são as impressões subliminares das aflições e das tendências subconscientes) são destruídos e partidos em pedaços.

Bem, isso é o que precisamente o buscador no caminho do yoga, ou qualquer viajante no caminho da auto-realização tende a perseguir. Será portanto mais relevante ponderar a respeito e fazer mais deliberações sobre o que foi instruído aqui, pois, somos apenas estudantes do yoga. A relação entre comida e faculdade meditativa foi apenas agora articulada com base no teorema.

Annamyam hi, saumya , manah
“a mente verdadeiramente é a resultante da comida consumida”

Então, ahara suddhi que é a nutrição pura, torna-se o útero da meditação e o significado de ahara é nutrição ou comida e a pureza dela é a combinação de alguns fatores, tais como: 

A comida consumida é adquirida legalmente. É tomada com sentimento religioso e significado espiritual mencionado anteriormente. Não deve ser tomada para auto gratificação, mas para o cultivo da mente.

Quanto à natureza do alimento, o Bhagavad Gita desenha três padrões de comida que nos auxilia imensamente em tomar decisões sobre se a comida é desejada ou não.

O primeiro padrão com a comida é o que atrai as pessoas satvicas que são puras e quietas por natureza, tem a mente religiosa e são buscadoras de sabedoria. O segundo padrão de comida é o apelo às pessoas rajasicas que são adeptas de engajamento social e são descritas como pessoas que gostam de destacar-se e entreter a todos no sentido de ganhar auto-gratificação. O terceiro padrão de comida é o que chama a atenção das pessoas tamasicas que sempre desejam um final ruim aos outros e não hesitam em fazer práticas malignas para essa finalidade. Vejamos que tipos de alimentos se assimilam a cada um desses padrões de acordo como Bhagavad Gita:

A comida que atrai as pessoas sattvicas é:

Ayuh sattva bala arroga sukha priti vivardhanah
Rasya snigdha hrdya ahra sattvica priya

(Gita XVII.8) 

Está enumerado aqui que a comida que atrai as pessoas sattvicas são as que promovem longevidade, força, senso de divindade, saúde, alegria, prazer e que seja cheia de suco, rica em nutrientes e agradável.

A comida que atrai as pessoas rajasicas é:

Katva amla lavana atyusna tiksna ruksa vidahinah
Ahara rajasaya ista duhkasokamaya pradah

(Gita XVII, 9)

Significa que a comida para essas pessoas é adstringente, salgada, apimentada, pungente, seca e produz dor, doenças e pesares. 

A terceira classe que atrai as pessoas tamasicas é descrita como:

Yatayaman gatarasam puti paryusitam ca yat
Ucchistam api ca amedhyam bho janam tamasa priyam

(Gita XVII, 10)

Essa comida sequer é fresca, é cozida pela metade e sem sabor, putrefata, mofada e restos.

Vamos dar uma olhada no Manu Smrti que também é claro em suas diretrizes nos princípios sobre comida e que impõe certo tabu em alguns itens; se a comida deve ser santificada e provedora de enriquecimento à mente. 

Manu impõe aqui uma proibição de certos itens para aqueles que são buscadores de uma vida de estilo Brahmanica. Existe tabu no uso de alho, alho-poró, cogumelos e todas as plantas advindas de um solo impuro, e menciona que deve-se evitar a exsudação vermelha das árvores (tadi) e o leite engrossado da vaca depois da ordenha. Também diz que bolos doces não devem ser ingeridos antes de serem ofertados ao Deus e distribuído aos outros, e aconselha evitar os produtos curados.

Agora veremos o que os aspirantes ao yoga têm recebido de instrução pelos sábios nos textos clássicos. 

O Bhagavad Gita diz:

Na ati asnatah tu yoga asti na ca ekantam anasnatah

(Gita XVII, 16)

O Senhor fala: “yoga não é uma possibilidade para uma pessoa que come demais ou que não come nada e passa fome”; subsequentemente é avisado que hábitos alimentares devem ser apropriados e equilibrados. Temperança nos hábitos alimentares é também estressado no Yogakundalini Upanishads onde existe um estresse nos doces e alimentos nutritivos. Também menciona-se que um quarto da barriga deve-se manter vazio. O Sandilya Upanishad tem dito que durante o estágio de busca do estado de yoga (sadhakavastha) subsistir com alimentos subentende-se em comidas de base de leite e guee pois conduz à meditação e quando a prática está firmemente enraizada então o rigor da observação não precisará mais ser insistida. 

O Hatha Yoga Pradipika diz:

Susnigdham madhuram ahara caturhamsa vivar jitah

HYP 58

De acordo aqui a comida deve ser cheia de suculenta e doce e o preenchimento do estômago deve ser proporcionalmente: metade sólido, um quarto água e um quarto vazio. O mesmo texto dá também uma descrição de alimentos, diz-se que comer alimentos que são amargos, azedos, pungentes, salgados deve ser evitado. Vegetais amargos, kanji, óleo, mostarda, gergelim, álcool, peixe, carne, coalhadas, frutas vermelhas, bolos oleosos e alho também devem ser evitados. Mesmo as comidas que são requentadas não são boas a serem ingeridas. O texto descreve quais os alimentos a serem ingeridos: os grãos, trigo, arroz, cevada, leite, guee, açúcar, manteiga, doces de açúcar, mel, gengibre seco, pepino, água pura, e acrescenta dizendo que deve-se ingerir comida nutritiva, doce e untuosa (Smigdha). Os produtos do leite da vaca são ideais e a comida escolhida deve ser aprazível para aquele que come. 

Agora deixe-nos concluir com a ênfase em santificar os aspectos de nossos hábitos alimentares. Nos tempos modernos tendemos a sentir que ganhamos a nossa subsistência e que ganhar a nossa comida é um tema de ser auto-suficiente. Entretanto, essa forma de pensar serve-nos apenas para construir e enriquecer esse mesmo conceito de Self. Somos ignorantes do fato que nosso dinheiro não é convertido em comida, mas é o instrumento para adquirir a mesma. Não temos consciência do (addhidaivik– divino) aspecto da comida e portanto com cada porção de alimento que ingerimos adicionamos aos nossos pecados.

Deixe-nos apresentar então os aspectos divinos da comida que é o produto da interação da graça e do poder do seguinte:

Parjanya devata – deus da chuva
Surya devata – deus do sol
Vidhuta devata – deus do relâmpago
Prthvi devata – deus das terra
Candra devata – deus da lua  
Samudra devata – deus do mar
Nadi devata – deus do rio
Vana devata – deus da floresta e outros

Vamos nos questionar a respeito do que temos como marca de atitude quando engolimos a comida que está a nossa frente. Estamos sendo justos com essas forças potentes?

As apreciações védicas de sacrifícios, rituais, espiritualizações e observações religiosas não são meramente práticas de hipocrisia religiosa baseadas em ideias hiperbólicas e fanatismo e ortodoxia. Tudo isso foi adicionado e reconhecido perante o papel das forças divinas celestiais que nos influenciam. Nossos ancestrais praticavam os rituais para poder oferecer a gratidão a essas forças celestiais. 

As ofertas são sacrifícios e o princípio dos sacrifícios como mencionado no Baghavad Gita é : “fortaleça-se em Deus e deixe Deus fortalecer-te” .

Devan bhavayatanena te deva bhavayantu va
Parasparam bjavayanthan sreyah paramavapsyatha

(Gitta III, 11)

Significando que “refugiando-se em sacrifício; Deus certamente ira dar-te sem perguntar tudo que é desejado por ti”. Diz-se subsequentemente que aquele que desfruta dos presentes outorgados por Deus sem dar nada em retorno é sem duvida alguma um ladrão.

Isso deve ser suficiente para nós entendermos como a comida deve ser tomada e para quem devemos glorificar e orar. Deve-se notar que as pessoas religiosas de todas as partes do mundo tinham o habito de recitar orações de agradecimento e bendizeres antes de cada refeição. Os cristãos ainda recitam graças antes de suas refeições.

Vamos adotar esses princípios nos nosso hábitos alimentares reverenciando na entrada e conclusão de nossa comida dizendo pelo menos Sri Krisnarpanmatsu.

Que seja uma oferta a Sri Krishna

O que as pessoas disseram sobre isso:

Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *